Os Textículos

Um saquinho de surpresas

Reverando

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Revira e volta
Eu me pego reverando
Revivendo seu cabelo
Remoendo aquele beijo
Que antes de dar revoguei
Revida que revolta
Porque nunca vividou
E revivida não há de ser
Por querer ou sem querer
Teu querer não me quis bem
E meu querer até te quis
Mas quereu tarde demais
E esse não reverberar
É que me faz rememorar
Reverendar, reverendar

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Written by Gustavo

março 11, 2018 at 11:26 pm

Publicado em Sacadas

Ah, literações…

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Sobrar só
Soçobrar
Afundar
Em alto mar

Braços sós
Sem abraçar
Abster-se
Abnegar

E dormir
e domar
Fugidio
Mal-estar

Written by Gustavo

março 23, 2016 at 11:11 pm

Publicado em Sacadas

Música

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Foi à noite que Tarso teve o pensamento: nós gostamos de Casablancas, mas cada um a seu modo. “That’s not just friendship, that’s romance too”, ela dizia, “you like music we can dance to”. O problema é que a dança era um tango e ele nunca fora argentino.

Ele sabia o que ela queria dizer com “I’ll try anything once”. É algo que condizia com a sua veia literária – nem só de imaginações vive um escritor, principalmente quando é ele mesmo o personagem principal da trama. Mas “there is a time when we all fail”. Isso é coisa que acontece, e ela sabia que “some people take it pretty well, some take it all out on themselves.”

A verdade é que há coisas boas. E a verdade acima dessa é que há coisas melhores sem qualquer prejuízo às coisas boas. Por isso Casablancas tinha duas versões. A de Tarso era “shut me up, shut me up, and I’ll get along with you”. Eram duas músicas, que no fundo são uma coisa só, mas que sempre serão diferentes.

“Twenty ways to see the world, twenty ways to start a fight.” Nem bom nem mau. Apenas era e assim ficaria.

Written by Gustavo

dezembro 19, 2015 at 10:28 pm

Publicado em Sacadas

IMPERATIVOS I

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Ficar velho é passar a se preocupar quando você escuta alguém contar uma desgraça.

Acertar ou errar é uma questão de doer em mim ou em você.

Ser promovido é um ato solitário.

Se o mundo fosse justo beber seria inútil.

Nenhum ódio é tão grande quanto o que surge após o ato de morder a própria língua.

Written by Gustavo

outubro 30, 2015 at 10:26 pm

Publicado em Sacadas

O RAP DO NERD APAIXONADO

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(*spoiler: extremamente juvenil*)

Eu gosto daquela moça… Não! Eu amo ela!
Assim como todas as minas que vieram antes dela
É claro que nenhuma me amou ou sequer por mim se apaixonou

Mas isso não importa, o que importa é competir
Quando eu cansar desse jogo eu peço pra sair
Melhor de um, três, seis, nove ou doze,
Tanto faz, pois quando eu peço truco elas fogem

Tenho várias namoradas, todas elas platônicas
E os meus amigos adoram tirar onda
Só porque elas dizem que eu sou muito legal
Mas nunca nem relaram no meu pau
Que importa? Eu tenho uma relação profunda
Altos papos à noite, de segunda a segunda
Mas quando chega a hora de sair, eu vou dormir
E elas vão pra noitada com outros caras

Altas horas da madruga e eu aqui no zap zap
Esperando nudes, mas só chegam mensagens
Dizendo “saí com o fulano, ele é um idiota”
Eu sei disso, mulher! Vamos dar uma volta
Eu te trato direitinho, serei um bom mocinho
“Não! Você é meu melhor amiguinho!”
“A gente é como irmão, tenta entender”
Eu tento, juro que tento
Mas esse papo é de foder

Não consigo entender por que não tenho sex appeal
Será a falta de muque ou esse falso tanquinho?
Mas e meu repertório, e meu vocabulário?
Minha educação? Isso não serve? Caralho!
Aprendi tudo errado e agora ninguém me quer
Como será que eu faço pra arranjar uma mulher?

Vou entrar na academia e malhar o peitoral
Minha silhueta vai ficar fenomenal
Vou ficar tão gostoso que serei irresistível
Deixa só eu acabar esse pacote de Pringles
Também posso apelar para a musicalidade
Vou tocar violão e ganhar popularidade
Mas antes disso, preciso que a minha voz engrosse
Enquanto isso não acontece vou jogando Mario Brother

Written by Gustavo

outubro 30, 2015 at 10:10 pm

Publicado em Sacadas

Chuvas

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Não se vá, avô. Fique mais um pouco. É necessário que a gente converse sobre as coisas que sempre deixamos passar porque sempre puderam ser empurradas para lá ou para cá. Hoje não podemos fazer isso. Há uma barreira de temas a ser vencida e pouco tempo para cruzá-la. Provavelmente não teremos tempo – precisaremos perfurá-la com um pouco de dor e pressa. Uma dose de cachaça também não faria mal.

Esse suspiro entediado no meio da tarde é um sintoma de muita televisão e a solução para isso é ver a vida passar na rua com narração do José Silvério. Passam duas mulheres do outro lado do campo, cruzam para o pessoal do culto e é gol! Gol! GOOOOOOOL… De quem? O senhor não sabe porque cochilou no banco do 147. Não tem problema. Logo alguém vem contar, principalmente se for contra o Palmeiras.

A família inteira estava em volta da mesa e você entrou, sabendo que seria o centro das atenções, porque minutos antes era o motivo das reclamações. Passou pelos diplomas na parede, pelo quadro da seleção de 1982 da Itália, pelas janelas que abrem para dentro de casa. Andou mais devagar perto do mapa da bota e chegou na cozinha. Ralhou com alguém, deu umas risadas, ficou puto e foi embora. Na saída, apontou para a Etiópia e disse, lembrando da época da guerra: fiquei preso aqui.

Às vezes também parecia que você tinha ficado preso aqui no Brasil e aprendido da forma mais dura possível o que era a saudade, palavra que não existia no seu idioma natal. Você se arrependeu, eu sei. Olhando em retrospecto preferia ter ficado por lá. Mas esse arrependimento é daqueles que, quando passa a maré brava, a gente se arrepende de sentir.

É que família enche o saco – principalmente uma tão grande quanto a sua. Ter 92 anos só piora a situação. Será que ninguém lembrava do senhor construindo a casa na unha? Ou trabalhando com os Matarazzo? Ou encarando aquela ladeira imensa pra ir na casa do meu pai mesmo com esse quase século nas costas? Porra, ninguém via que você ainda estava lá, de pé, como sempre? É de emputecer qualquer um – até o santinho que você deixava do lado da cama. Era um Santo Antônio?

Eu entendo o seu silêncio. Você nunca foi de falar muita coisa mesmo, menos ainda se o assunto era você. Mas eu precisava conversar um pouco. Estava cansado de falar sozinho.

Written by Gustavo

setembro 8, 2015 at 10:45 pm

Publicado em Sacadas

Releve

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A raiva corrói a calma
É palha perto de chama
Rastilho que corre o chão
O tiro pré explosão

Atiro, firo
Firo, humilho
Humilho, contrição

Respiro no afogamento
Culpado na redenção
Açoite de pensamento
Acinte sem intenção

Masca a foice, deita a arma
Lâmina de fio d’água
Molha a pele manchada e corta a veia da mágoa
Sangra até amanhã
Samba até de manhã

Written by Gustavo

abril 8, 2015 at 9:04 pm