Os Textículos

Um saquinho de surpresas

Ah, literações…

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Sobrar só
Soçobrar
Afundar
Em alto mar

Braços sós
Sem abraçar
Abster-se
Abnegar

E dormir
e domar
Fugidio
Mal-estar

Written by Gustavo

março 23, 2016 at 11:11 pm

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Música

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Foi à noite que Tarso teve o pensamento: nós gostamos de Casablancas, mas cada um a seu modo. “That’s not just friendship, that’s romance too”, ela dizia, “you like music we can dance to”. O problema é que a dança era um tango e ele nunca fora argentino.

Ele sabia o que ela queria dizer com “I’ll try anything once”. É algo que condizia com a sua veia literária – nem só de imaginações vive um escritor, principalmente quando é ele mesmo o personagem principal da trama. Mas “there is a time when we all fail”. Isso é coisa que acontece, e ela sabia que “some people take it pretty well, some take it all out on themselves.”

A verdade é que há coisas boas. E a verdade acima dessa é que há coisas melhores sem qualquer prejuízo às coisas boas. Por isso Casablancas tinha duas versões. A de Tarso era “shut me up, shut me up, and I’ll get along with you”. Eram duas músicas, que no fundo são uma coisa só, mas que sempre serão diferentes.

“Twenty ways to see the world, twenty ways to start a fight.” Nem bom nem mau. Apenas era e assim ficaria.

Written by Gustavo

dezembro 19, 2015 at 10:28 pm

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IMPERATIVOS I

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Ficar velho é passar a se preocupar quando você escuta alguém contar uma desgraça.

Acertar ou errar é uma questão de doer em mim ou em você.

Ser promovido é um ato solitário.

Se o mundo fosse justo beber seria inútil.

Nenhum ódio é tão grande quanto o que surge após o ato de morder a própria língua.

Written by Gustavo

outubro 30, 2015 at 10:26 pm

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O RAP DO NERD APAIXONADO

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(*spoiler: extremamente juvenil*)

Eu gosto daquela moça… Não! Eu amo ela!
Assim como todas as minas que vieram antes dela
É claro que nenhuma me amou ou sequer por mim se apaixonou

Mas isso não importa, o que importa é competir
Quando eu cansar desse jogo eu peço pra sair
Melhor de um, três, seis, nove ou doze,
Tanto faz, pois quando eu peço truco elas fogem

Tenho várias namoradas, todas elas platônicas
E os meus amigos adoram tirar onda
Só porque elas dizem que eu sou muito legal
Mas nunca nem relaram no meu pau
Que importa? Eu tenho uma relação profunda
Altos papos à noite, de segunda a segunda
Mas quando chega a hora de sair, eu vou dormir
E elas vão pra noitada com outros caras

Altas horas da madruga e eu aqui no zap zap
Esperando nudes, mas só chegam mensagens
Dizendo “saí com o fulano, ele é um idiota”
Eu sei disso, mulher! Vamos dar uma volta
Eu te trato direitinho, serei um bom mocinho
“Não! Você é meu melhor amiguinho!”
“A gente é como irmão, tenta entender”
Eu tento, juro que tento
Mas esse papo é de foder

Não consigo entender por que não tenho sex appeal
Será a falta de muque ou esse falso tanquinho?
Mas e meu repertório, e meu vocabulário?
Minha educação? Isso não serve? Caralho!
Aprendi tudo errado e agora ninguém me quer
Como será que eu faço pra arranjar uma mulher?

Vou entrar na academia e malhar o peitoral
Minha silhueta vai ficar fenomenal
Vou ficar tão gostoso que serei irresistível
Deixa só eu acabar esse pacote de Pringles
Também posso apelar para a musicalidade
Vou tocar violão e ganhar popularidade
Mas antes disso, preciso que a minha voz engrosse
Enquanto isso não acontece vou jogando Mario Brother

Written by Gustavo

outubro 30, 2015 at 10:10 pm

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Chuvas

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Não se vá, avô. Fique mais um pouco. É necessário que a gente converse sobre as coisas que sempre deixamos passar porque sempre puderam ser empurradas para lá ou para cá. Hoje não podemos fazer isso. Há uma barreira de temas a ser vencida e pouco tempo para cruzá-la. Provavelmente não teremos tempo – precisaremos perfurá-la com um pouco de dor e pressa. Uma dose de cachaça também não faria mal.

Esse suspiro entediado no meio da tarde é um sintoma de muita televisão e a solução para isso é ver a vida passar na rua com narração do José Silvério. Passam duas mulheres do outro lado do campo, cruzam para o pessoal do culto e é gol! Gol! GOOOOOOOL… De quem? O senhor não sabe porque cochilou no banco do 147. Não tem problema. Logo alguém vem contar, principalmente se for contra o Palmeiras.

A família inteira estava em volta da mesa e você entrou, sabendo que seria o centro das atenções, porque minutos antes era o motivo das reclamações. Passou pelos diplomas na parede, pelo quadro da seleção de 1982 da Itália, pelas janelas que abrem para dentro de casa. Andou mais devagar perto do mapa da bota e chegou na cozinha. Ralhou com alguém, deu umas risadas, ficou puto e foi embora. Na saída, apontou para a Etiópia e disse, lembrando da época da guerra: fiquei preso aqui.

Às vezes também parecia que você tinha ficado preso aqui no Brasil e aprendido da forma mais dura possível o que era a saudade, palavra que não existia no seu idioma natal. Você se arrependeu, eu sei. Olhando em retrospecto preferia ter ficado por lá. Mas esse arrependimento é daqueles que, quando passa a maré brava, a gente se arrepende de sentir.

É que família enche o saco – principalmente uma tão grande quanto a sua. Ter 92 anos só piora a situação. Será que ninguém lembrava do senhor construindo a casa na unha? Ou trabalhando com os Matarazzo? Ou encarando aquela ladeira imensa pra ir na casa do meu pai mesmo com esse quase século nas costas? Porra, ninguém via que você ainda estava lá, de pé, como sempre? É de emputecer qualquer um – até o santinho que você deixava do lado da cama. Era um Santo Antônio?

Eu entendo o seu silêncio. Você nunca foi de falar muita coisa mesmo, menos ainda se o assunto era você. Mas eu precisava conversar um pouco. Estava cansado de falar sozinho.

Written by Gustavo

setembro 8, 2015 at 10:45 pm

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Releve

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A raiva corrói a calma
É palha perto de chama
Rastilho que corre o chão
O tiro pré explosão

Atiro, firo
Firo, humilho
Humilho, contrição

Respiro no afogamento
Culpado na redenção
Açoite de pensamento
Acinte sem intenção

Masca a foice, deita a arma
Lâmina de fio d’água
Molha a pele manchada e corta a veia da mágoa
Sangra até amanhã
Samba até de manhã

Written by Gustavo

abril 8, 2015 at 9:04 pm

Culpas

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Hoje morreu o cinegrafista Santiago Ilídio Andrade, da Band, que foi atingido por um rojão ou algo semelhante enquanto filmava manifestações contra o aumento da passagem de ônibus no Rio de Janeiro. Segundo depoimento à polícia de um dos envolvidos no incidente, o explosivo foi disparado por uma pessoa que participava do protesto. Imagens de outras redes de televisão endossam essa tese. A polícia ainda investiga.

Lamentável é pouco para descrever esse tipo de tragédia muito mais que esperada. Como diz o meu amigo Mauricio Savarese, se há uma coisa em que tanto a polícia truculenta quanto grupos de manifestantes auto-proclamados apolíticos, apartidários e anárquicos concordam é que a imprensa tem mais é que apanhar. Azar dos jornalistas e cinegrafistas, que distorcem a verdade e trabalham – curiosamente ao mesmo tempo – para o capitalismo, o comunismo, o empresariado, os petralhas, a ditadura gay, o Sarney… enfim, para qualquer um que, na cabeça dessas pessoas, justifique alguma dose de ódio.

Mas o que é, de onde vem esse ódio? Nas palavras do escritor Tennessee Williams, que é muito melhor do que eu e você, “o ódio é uma coisa, um sentimento que só existe onde não há entendimento. Bons médicos nunca o sentem. Eles nunca odeiam os pacientes, nao importa o quão detestáveis esses pacientes possam parecer”.

A lógica é a mesma para as manifestações. Será que as pessoas ali entendem realmente o que acontece? Sabem o motivo pelo qual estão protestando, a quem reclamar, quais os fatores envolvidos? Qual é o motivo real para essas pessoas, que quase em todo protesto precisam enfrentar a violência policial, agirem com a mesma violência? O que legitima a violência dos manifestantes?

Tive essa discussão com várias pessoas e os argumentos foram os mais variados possíveis. O mais recorrente era que quebrar lojas, patrimônio público e pessoas – não foi o caso? – era justificável dentro dos preceitos da desobediência civil, visto que as pessoas eram oprimidas pelo capital, pelo governo, pela midia, pelo crime, pela polícia – mais uma vez, o que coubesse melhor – e tinham de se defender.

Eu não tenho ampla base teórica em Direito para discorrer sobre a legalidade da desobediência civil, mas fiz um esforço básico para ir atrás de um texto considerado essencial sobre o assunto – o ensaio Desobediência Civil, de Henry David Thoreau, publicado em 1849. O documento, que foi escrito após a Guerra do México e contém inúmeras críticas ao militarismo dos Estados Unidos, basicamente afirma que nenhum homem deve obedecer a uma lei ou regra que não concorde.

O processo de resistência, no entanto, é individual, porque envolve questionamento moral das próprias ações sem a imposição da vontade de uma pessoa, órgão ou governo sobre os demais. Um bom resumo disso é esta passagem:

“Não é o dever de um homem devotar-se à erradicação de nenhum erro – mesmo do mais enorme… Mas é seu dever, pelo menos, se livrar do erro e… não lhe oferecer suporte. Se eu me devotar a outras buscas e contemplações, preciso primeiro garantir, pelo menos, que não estou fazendo isso às custas de outro homem.”

Diferentemente do que a maioria das pessoas entende por desobediência civil, o ensaio de Thoreau defende que a pessoa assuma responsabilidade por seus atos de forma consciente e autossuficiente, sem enfiar goela abaixo um ponto de vista, pois é justamente esse o problema combatido pela desobediência civil – a imposição de uma prática ou lei da qual o indivíduo discorda.

Eu estou batendo na tecla do indivíduo porque a essência desse pensamento é liberal, mas o conceito é perfeitamente aplicável a uma comunidade, como na resistência de Gandhi ao colonialismo britânico, na de Chico Mendes à derrubada de seringueiras na Amazônia, nas manifestações de silêncio conduzidas por Martin Luther King. Em nenhum desses casos houve imposição de uma ideia pelos “desobedientes”. Houve exatamente a resistência. Nas palavras de Thoreau, o esforço para se livrar do erro.

Partindo deste ponto, o que então justifica as ações violentas no protesto vindas dos manifestantes? Quem participa de passeatas precisa no mínimo acreditar na eficácia deste método como ferramenta de transformação da sociedade. Precisa acreditar que há uma via de diálogo. Precisa acreditar que há leis e elas serão cumpridas. Que é possível pressionar as autoridades para mudar a abordagem da polícia em vez de se tornar uma contra-polícia, mudar a postura dos partidos em vez de ser antipartido, defender o fim da violência sem empregar um contra-ataque.

A única explicação que eu encontro é o ódio. E o ódio vindo da falta de entendimento de que todos os presentes numa situação como a que terminou com a morte do Santiago no Rio de Janeiro estão envolvidos em uma trama muito mais complexa do que a batalha entre o lado dos bonzinhos e o dos malvados. Quem decide quem está com a razão? Quem tem esse poder de análise? Pior, quem está apto a decidir se alguém merece um rojão na cabeça? Qualquer pessoa que responda “eu” a essas perguntas possui sérios problemas para viver em sociedade.

Em situações como a do Rio, a presença do jornalista provavelmente evita uma ação muito mais violenta da polícia – principalmente os cinegrafistas como o Santiago. A hostilidade à imprensa é burra. A qualquer ala da imprensa. A tradicional ou a alternativa. Quanto mais vozes para relatar, mais chances haverá de a história contada ser verdadeira. Os veículos de imprensa têm um viés, mas você pode escolher não segui-lo. Isso é uma opção, porque vivemos em uma democracia, e uma responsabilidade, também porque vivemos em uma democracia. A culpa não é só da “mídia”.

Revolução não se faz só com pedras.

Written by Gustavo

fevereiro 10, 2014 at 5:43 pm

Publicado em Sacadas

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