Os Textículos

Um saquinho de surpresas

Escreveu, não leu… a gente engole, né

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É impressão minha ou ninguém tem o cuidado de reler as coisas que escreve? Claro, às vezes não dá para detectar um ou outro erro, mas há casos em que não há preocupação sequer de encadear as frases de um jeito harmonioso – coisa pequena que faz grande diferença.

Vou usar como exemplo uma notícia que estava na homepage do Estadão por volta das 21h de hoje:

Anvisa proíbe a venda e propaganda do Atroveran Plus

Medicamento tem registro cancelado pela Anvisa pois fórmula é diferente do Atroveran Composto

SÃO PAULO – O medicamento Atroveran Plus foi cancelado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Assim, também está proibida a venda e propaganda do remédio. De acordo com a Anvisa, o medicamento teve o registro cancelado pois sua fórmula base é diferente do Atroveran Composto.

O Atroveran Plus tem como base o paracetamol e o Atroveran Composto, a dipirona. Segundo a Anvisa, o termo “Plus” leva o consumidor a entender que a fórmula do Atroveran Plus potencializa o princípio ativo do Atroveran Composto.

A DM Indústria Farmacêutica, fabricante do produto, retirou o medicamento de circulação e, segundo a assessoria de imprensa, está dentro das normas da Anvisa.

Ok. Agora vejam o comunicado da Anvisa que deu origem a esta notícia.

Anvisa proíbe propaganda do Atroveran Plus

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) determinou, nesta segunda-feira (17/8), a suspensão, em todo o país, de todas as propagandas do produto Atroveran Plus, da empresa Hypermarcas S/A. O medicamento teve seu registro cancelado pela Anvisa em 10/08/2009 e não pode mais ser vendido no Brasil.

O cancelamento do registro do Atroveran Plus foi motivado por não haver identidade de formulação entre ele e o medicamento Atroveran Composto. O princípio ativo do Atroveran Plus é o paracetamol e o do Composto, a dipirona. O adjetivo “plus” levava os consumidores a acreditarem em uma potencialização dos efeitos do medicamento composto.

Qual está mais claro? Honestamente, o jornalista poderia simplesmente ter cortado uma ou outra parte do comunicado da Anvisa e colocado no ar. Ficaria muito melhor. Eu sei que é difícil parar para avaliar este tipo de coisa na correria de uma redação, trabalho com isso também, mas porra… Se esse descaso acontece com notícias que tem relevância limitada – como a do Atroveran -, o que pensar daquelas de maior impacto.

Há diferenças técnicas básicas entre os dois textos. A frase de abertura do comunicado da Anvisa, por exemplo, está em ordem direta. Primeiro temos o sujeito, depois o predicado e em seguida o complemento. Isso hierarquiza a informação e, como pôde ser observado, permite a construção de uma frase mais longa sem a necessidade de muitos rodeios.

No texto do Estadão, as frases curtas não facilitam a compreensão do texto. Ao contrário. Por conta delas é necessário retomar diversas vezes quem é o sujeito e qual foi a ação, o que dá aquela sensação de que o texto não flui.

Vou colocar abaixo uma possível versão que, na minha opinião, é melhor do que a do Estadão.

Anvisa proíbe propaganda do Atroveran Plus

Nome do medicamento poderia induzir consumidor a erro, segundo agência

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) proibiu nesta segunda-feira a veiculação de propagandas do Atroveran Plus. O medicamento, utilizado no combate a cólicas, teve seu registro cancelado pelo órgão no início do mês e não pode mais ser vendido no Brasil.

De acordo com as autoridades da Anvisa, o Atroveran Plus perdeu o registrou porque o adjetivo “plus” levava os consumidores a acreditar que o remédio proporcionava os efeitos do Atroveran Composto, porém mais fortes. Os dois medicamentos, no entanto, possuem fórmulas diferentes – o princípio ativo do Atroveran Plus é o paracetamol, enquanto o do Composto é a dipirona.

A fabricante dos dois produtos informou que retirou o Atroveran Plus de circulação.

Ainda que tenha ficado mais clara que a do Estadão, esta nota também possui problemas e deixa algumas dúvidas. Por exemplo:

- Não fica claro, pelo menos pelo comunicado da Anvisa, se a dipirona e o paracetamol têm efeitos diferentes sobre o organismo.
- Não dá para afirmar que a Anvisa proibiu a venda do medicamento nesta segunda-feira. Pode ser que a venda já estivesse suspensa desde o início de agosto, quando foi cancelado o registro do Atroveran Plus.
- Embora a nota do Estadão cite a DM Indústria Farmacêutica como fabricante do produto, a Anvisa afirma que o Atroveran Plus é da Hypermarcas. A versão da Anvisa tem mais chance de ser verdade; provavelmente a DM Indústria Farmacêutica pertence à Hypermarcas. No site da própria agência, no entanto, os remédios estão registrados como sendo das duas empresas. Não encontrei informações mais detalhadas no site da Hypermarcas. Na dúvida, omiti o nome do fabricante.

Enfim. Vejam só que titica de texto e o trabalho que dá. Reitero: não é fácil dar atenção a um texto pequeno desse no dia-a-dia da redação. Muitas vezes não há tempo e tem pelo menos uns quinze desses para fazer em dez minutos. Mas do jeito que foi publicado originalmente não dá.

Escrito por Gustavo

Agosto 25, 2009 às 12:28 am

Publicado em Saco Cheio

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