Os Textículos

Um saquinho de surpresas

Diagnóstico

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Em seu leito de morte, o homem rogava que Deus existisse
Porque não suportava o peso da própria consciência
Lavrada e transformada em terra infértil
Queria o juízo supremo, a verdade inerente
Cruzar a linha entre a ignorância e…

O nojo lhe subia a garganta
O estonteante efeito do desperdício do tempo
A nauseante e moribunda respiração
Compassada

Prenunciada falência
Enunciada demência
Ultrapassada dormência

A eterna latência
A única doença

Escrito por Gustavo

Outubro 22, 2009 em 11:01 pm

Publicado em Sacada Literária

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O pulo de Cabral

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Tenha você reservas ou não quanto à vitória do Rio de Janeiro na disputa para sediar as Olimpíadas de 2016, é incontestável que a decisão do Comitê Olímpico Internacional fez furor na delegação brasileira em Copenhaguen, principalmente – e como era de se esperar – no governador fluminense, Sérgio Cabral.

Reparem, amigos e amigas, no pulo que dá Cabral após o anúncio da vitória do Rio. Salvo engano, ele é aquele terno que já está flutuando a dois metros de altura do chão quando a câmera tenta focalizar o Lula e o ministro do Esporte, Orlando Silva.

Pulo igual a esse nunca ninguém deu igual – nem mesmo o antepassado do governador, o Pedro, quando encalhou por aqui em 1500.

Escrito por Gustavo

Outubro 2, 2009 em 10:27 pm

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O mais bonito anacronismo

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Ouro Preto

Ouro Preto

No crepúsculo da minha vida, quero morar em Ouro Preto. Acordar com o dia nascendo atrás da montanha, subir uma ladeira estreita para comprar pão e voltar para casa cercado por fachadas de casas velhas e desnecessariamente coloridas, parecidas com vovós se arrumando para um baile. Essa cidade tem um aspecto de livro preferido que não sai da minha cabeça há oito anos.

Escrito por Gustavo

Setembro 26, 2009 em 12:37 am

Publicado em Sacadas

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Vai Ketchup?

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Um molho para lá de especial

Seja legal com empregadas da Indonésia...

Uma empregada doméstica presa na Indonésia após misturar o sangue da própria menstruação na refeição da patroa foi julgada inocente das acusações de envenenamento que sofreu após o episódio. Indra Ningsih, 26 anos, admitiu à polícia que havia acrescentado o molho especial ao prato da empregadora, uma chinesa, como parte de uma simpatia para transformá-la numa pessoa “mais amigável e menos implicante”.

Em 2008, um tribunal da Arábia Saudita condenou duas empregadas domésticas de origem indonésia e filipina à prisão por quatro meses e ordenou que cada uma recebesse 250 chibatadas por terem misturado urina e sangue da menstruação no chá do patrão.

Outra doméstica nascida na Indonésia mas que trabalhava em Hong Kong foi presa em 2007 após ser condenada por adicionar urina à água dos patrões, na expectativa de que isto faria a família para a qual trabalhava gostar mais dela.

Tá duvidando? Tá aqui.

Esse post foi baseado na minha pesquisa para um outro texto, então esperem algo do tipo da próxima vez.

Escrito por Gustavo

Setembro 18, 2009 em 12:31 am

Poesia Morna

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O sussurro quase mudo da madrugada
A penumbra velha dos olhos semicerrados
O meio-termo da cruz e da espada
Um anjo sem asas, o espaço limitado
Traço após traço, o círculo completa-se e desaparece

Falta de paixão
O peito rasga de ansiedade por algo novo
E o novo não vem
Apenas insinua um aroma débil de expectativa
E ferve o corpo em água morna
Água morta
Parada
E insossa

Escrito por Gustavo

Setembro 10, 2009 em 11:35 pm

Publicado em Sacada Literária

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Irene

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Irene, detesto o seu nome. Ele não presta, não te faz jus, não flutua. É tudo o que você não é.
Irene, você não é Irene.

Seus olhos são de Sofia, seus lábios de Melissa e seu calor é de Cássia. E eu seria de todas elas, não fosse por Irene. Não fosse esse maldito substantivo intolerável, com gosto de nada.

Tento sussurrar o seu nome. Ele sai tropeçando, ao contrário de você, que desliza perfeitamente no canto do meu olho, como uma nuvem de seda.

Irene, parede, prédio, tédio. Vê agora?
Essas cinco letras que alguém supôs que te definiriam…
Que desgraça.
Queria chorar no teu colo de Amanda, Irene, de pena de você.

Flor chamada de barata.
Ouro pintado de prata.

Seu hálito de Letícia,
Perfume de Patrícia
Leveza de Verônica
Delicadeza de Beatriz

Escondem-se dos olhos alheios
Que não veem nada senão
o chumbo cortante de Irene

Escrito por Gustavo

Setembro 4, 2009 em 1:30 am

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Maldito Twitter

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“Pobres dos prolixos”, pensei, quando fiquei sabendo que inventaram uma ferramenta de microblog. Tudo bem, ninguém tem paciência para ler livros na frente do computador – dói a vista, a bunda e aumenta a probabilidade de a gente ficar corcunda. Mas o limite de 140 caracteres soa quase como uma provocação a qualquer pessoa que alguma vez na vida comunicou-se com os amigos por outro meio que não um SMS. O Twitter para mim é uma dessas coisas ditas revolucionárias que devem ser utilizadas com várias ressalvas. O que este negócio traz de novo, afinal de contas?

Alguns sites de notícias usam a ferramenta para publicar suas manchetes, colocando após o texto links para… reportagens – que, por enquanto, ainda têm mais do que uma frase. Exemplo: o New York Times, um dos jornais mais conhecidos do mundo e que disponibiliza gratuitamente grande parte de seu conteúdo na Internet.

Creio eu que o New York Times tenha um canal no Twitter numa tentativa de alavancar a audiência de seu site – e deve ter conseguido, visto que o twitter.com/NyTimes tem mais de 1,7 milhão de seguidores. Mas será que, para o leitor e twitteiro de plantão, esse é um sistema tão superiormente melhor para se informar do que visitar a homepage do jornal que, convenhamos, é visivelmente mais agradável e compreensível?

Autoridades de Estado ao redor do mundo também foram atraídas para o Twitter. Temos desde a Casa Branca (twitter.com/WhiteHouse) até o governo de São Paulo (twitter.com/governosp), inclusive com twittadas do José Serra (twitter.com/joseserra_)! Entre as frases postadas, argumentos a favor das ações e decisões da administração pública, com respectivos links para dados mais aprofundados. Quase a mesma lógica dos jornais, mas em vez do leitor o foco é o eleitor.

Há também as pessoas que usam a ferramenta para distribuir pequenos aforismos, desabafos e venenos. O formato do microblog estimula esse tipo de coisa – afinal, 140 caracteres não é espaço suficiente para comprometer ninguém. No máximo dá para mandar fulano tomar no cu, curto e grosso. Mandar para a putaqueopariu só se for tudo junto. Melhor ainda são observações como “hoje o dia está bonito”. Ou, nos twitters mais cults, “comi um muffin estragado. Lembrei da minha infância. Proust e Madeleines”. Uau. Pílulas de sabedoria que antes eram propagadas apenas naquele espaço “compartilhar uma mensagem” do MSN.

Quem deve gostar do Twitter é o Caio Tulio Costa, que me deu aulas de Ética na faculdade. Nas avaliações bimestrais, ele obrigava – e, soube recentemente, ainda obriga – os alunos a resumir tudo o que ele havia ensinado em uma única frase. Depois ficava mais difícil. Tínhamos que expressar o conhecimento numa expressão, depois em uma palavra, até chegar num único fonema. Mas isso é outro assunto.

Alguns especialistas em Internet apontam que o Twitter foi importantíssimo para organizar os protestos no Irã contra o resultado das eleições presidenciais do país. Duvido. Acredito muito mais no poder de comunicação da vizinha fofoqueira e na raiva das pessoas que pensaram ter sido enganadas pelo governo.

Não é difícil juntar gente insatisfeita. Imagina alguém subindo num banquinho para reclamar do atendimento das operadoras de celular. Quantos não vão se aglomerar em volta deste neo Antônio Conselheiro? Quantos não o seguirão se ele convocar a destruição de um call center? Quantos não se juntarão à multidão enfurecida, sem mesmo perguntar o motivo da revolta?

Fato é que não vejo utilidade para o Twitter. Ele não traz nada de novo, a não ser mais espaço para a publicação de bobagens assim como este post. A vantagem seria que eu não precisaria me estender por 3.678 caracteres para justificar isso.

Escrito por Gustavo

Setembro 4, 2009 em 1:04 am

Publicado em Saco Cheio

Escreveu, não leu… a gente engole, né

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É impressão minha ou ninguém tem o cuidado de reler as coisas que escreve? Claro, às vezes não dá para detectar um ou outro erro, mas há casos em que não há preocupação sequer de encadear as frases de um jeito harmonioso – coisa pequena que faz grande diferença.

Vou usar como exemplo uma notícia que estava na homepage do Estadão por volta das 21h de hoje:

Anvisa proíbe a venda e propaganda do Atroveran Plus

Medicamento tem registro cancelado pela Anvisa pois fórmula é diferente do Atroveran Composto

SÃO PAULO – O medicamento Atroveran Plus foi cancelado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Assim, também está proibida a venda e propaganda do remédio. De acordo com a Anvisa, o medicamento teve o registro cancelado pois sua fórmula base é diferente do Atroveran Composto.

O Atroveran Plus tem como base o paracetamol e o Atroveran Composto, a dipirona. Segundo a Anvisa, o termo “Plus” leva o consumidor a entender que a fórmula do Atroveran Plus potencializa o princípio ativo do Atroveran Composto.

A DM Indústria Farmacêutica, fabricante do produto, retirou o medicamento de circulação e, segundo a assessoria de imprensa, está dentro das normas da Anvisa.

Ok. Agora vejam o comunicado da Anvisa que deu origem a esta notícia.

Anvisa proíbe propaganda do Atroveran Plus

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) determinou, nesta segunda-feira (17/8), a suspensão, em todo o país, de todas as propagandas do produto Atroveran Plus, da empresa Hypermarcas S/A. O medicamento teve seu registro cancelado pela Anvisa em 10/08/2009 e não pode mais ser vendido no Brasil.

O cancelamento do registro do Atroveran Plus foi motivado por não haver identidade de formulação entre ele e o medicamento Atroveran Composto. O princípio ativo do Atroveran Plus é o paracetamol e o do Composto, a dipirona. O adjetivo “plus” levava os consumidores a acreditarem em uma potencialização dos efeitos do medicamento composto.

Qual está mais claro? Honestamente, o jornalista poderia simplesmente ter cortado uma ou outra parte do comunicado da Anvisa e colocado no ar. Ficaria muito melhor. Eu sei que é difícil parar para avaliar este tipo de coisa na correria de uma redação, trabalho com isso também, mas porra… Se esse descaso acontece com notícias que tem relevância limitada – como a do Atroveran -, o que pensar daquelas de maior impacto.

Há diferenças técnicas básicas entre os dois textos. A frase de abertura do comunicado da Anvisa, por exemplo, está em ordem direta. Primeiro temos o sujeito, depois o predicado e em seguida o complemento. Isso hierarquiza a informação e, como pôde ser observado, permite a construção de uma frase mais longa sem a necessidade de muitos rodeios.

No texto do Estadão, as frases curtas não facilitam a compreensão do texto. Ao contrário. Por conta delas é necessário retomar diversas vezes quem é o sujeito e qual foi a ação, o que dá aquela sensação de que o texto não flui.

Vou colocar abaixo uma possível versão que, na minha opinião, é melhor do que a do Estadão.

Anvisa proíbe propaganda do Atroveran Plus

Nome do medicamento poderia induzir consumidor a erro, segundo agência

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) proibiu nesta segunda-feira a veiculação de propagandas do Atroveran Plus. O medicamento, utilizado no combate a cólicas, teve seu registro cancelado pelo órgão no início do mês e não pode mais ser vendido no Brasil.

De acordo com as autoridades da Anvisa, o Atroveran Plus perdeu o registrou porque o adjetivo “plus” levava os consumidores a acreditar que o remédio proporcionava os efeitos do Atroveran Composto, porém mais fortes. Os dois medicamentos, no entanto, possuem fórmulas diferentes – o princípio ativo do Atroveran Plus é o paracetamol, enquanto o do Composto é a dipirona.

A fabricante dos dois produtos informou que retirou o Atroveran Plus de circulação.

Ainda que tenha ficado mais clara que a do Estadão, esta nota também possui problemas e deixa algumas dúvidas. Por exemplo:

- Não fica claro, pelo menos pelo comunicado da Anvisa, se a dipirona e o paracetamol têm efeitos diferentes sobre o organismo.
- Não dá para afirmar que a Anvisa proibiu a venda do medicamento nesta segunda-feira. Pode ser que a venda já estivesse suspensa desde o início de agosto, quando foi cancelado o registro do Atroveran Plus.
- Embora a nota do Estadão cite a DM Indústria Farmacêutica como fabricante do produto, a Anvisa afirma que o Atroveran Plus é da Hypermarcas. A versão da Anvisa tem mais chance de ser verdade; provavelmente a DM Indústria Farmacêutica pertence à Hypermarcas. No site da própria agência, no entanto, os remédios estão registrados como sendo das duas empresas. Não encontrei informações mais detalhadas no site da Hypermarcas. Na dúvida, omiti o nome do fabricante.

Enfim. Vejam só que titica de texto e o trabalho que dá. Reitero: não é fácil dar atenção a um texto pequeno desse no dia-a-dia da redação. Muitas vezes não há tempo e tem pelo menos uns quinze desses para fazer em dez minutos. Mas do jeito que foi publicado originalmente não dá.

Escrito por Gustavo

Agosto 25, 2009 em 12:28 am

Publicado em Saco Cheio

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Bourbon Street Fest

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Na verdade este post é mais sobre duas atrações de lá, já que eu não fiquei até o final. Cheguei no Ibirapuera mais ou menos umas 16h, então deu tempo de assistir um show legalzinho da Glen Andrews Band. Quem são? Não tenho a menor idéia. Ouvi pela primeira vez ali.  Achei legal, gostei de um arranjo que eles fizeram de “Don’t Stop ’till you Get Enough” e de outra que eles fizeram de “What a Wonderful World”. Agora, das músicas deles mesmo… acho que não lembro de nenhuma.


David Andrews Band – é, rapaz, eu tenho um celular, não uma câmera

Depois, veio um espetáculo da Marcia Ball e sua banda. “Quem é essa?”, pergunta você. Eu também não sabia. Conheci lá – e gostei. A mulher é uma figura, tem uma baita presença de palco e, mero detalhe, arregaça no teclado. Algumas músicas – como a que eu filmei – me lembraram um pouco Kid Abelha (!), mas obviamente que a Paula Toller ia ter que ensaiar muito num tecladinho Casio para tocar igual àquela mulher.


Marcia Ball – ela é o espírito branco de saia

Escrito por Gustavo

Agosto 17, 2009 em 11:20 pm

Publicado em Sacada Musical

A Divina Comédia

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Era uma mulher maravilhosa. Um furacão! Uma deusa! Morena, alta, bonita e sensual. O clichê da beleza em seu estado mais otimizado. Mas, dentre todas as suas virtudes, uma era conflitante com as demais. Belzébia – o nome era a única coisa feia que possuía – era carola.
Ai, que desesperança no coração (e baixo abdômen) sentiam os homens da vizinhança da moçoila! A vida da beldade era dedicada aos vestidos longos e fechados e às missas, de domingo a domingo, em todos os horários disponíveis. Em seu tempo livre, lia as escrituras sagradas e, nos finais de semana, ensinava na catequese.
O padre, um homenzinho babão e careca, pulava de felicidade ao ver entrar na igreja a musa da paróquia. Afinal, desde que ela passara a freqüentar a missa, as contribuições de dízimo aumentaram bastante, assim como o número de fiéis.
Nas aulas de catecismo, nenhuma criança da comunidade faltava. A fiscalização dos pais era dura e todos eles faziam questão de acompanhar seus filhos até o local. “Nesse mundo violento de hoje em dia, é melhor não descuidar”, justificavam-se. Belzébia concordava, fazendo cara de preocupada.
E a vida corria nessa rotina, até que um dia foi aberta, em frente à igreja, uma pastelaria. Sua dona, uma estonteante loira, alta, bonita e sensual, chamava-se Lucy Fernandes. Evidentemente chamou a atenção. Pouco a pouco, o leal povo (no masculino) da paróquia foi parando de freqüentar a missa e começou a engordar os olhos e a cintura com a pasteleira e seus quitutes.
Belzébia, como boa pastora de almas que era, notou a perda do rebanho. O padre também. E, não se sabe se por orgulho ferido ou por convicção religiosa, em um domingo de sol, na missa do meio-dia, Belzébia apareceu na porta da igreja de minissaia! A notícia correu os arredores. Naquele dia, ninguém comeu pastel.
Furiosa com o estratagema da diviníssima, Lucy Fernandes não deixou barato. Esperou uma semana e, quando Belzébia colocou-se postada de minissaia em frente ao templo, apareceu na porta da pastelaria vestindo um shortinho e um biquíni ínfimo! O faturamento do estabelecimento naquele dia cobriu o prejuízo da semana anterior e o esperado para a semana seguinte.
Na terceira semana de briga, as duas sabiam que a concorrência seria brava. E o povo (no masculino, novamente) já se aglomerava na rua, vibrando de expectativa. Ouviam-se gritos de torcida. E, naquele dia dominical, quando o ponteiro marcou doze horas, eis que surgem quase ao mesmo tempo Lucy Fernandes, em um lado da calçada, e Belzébia, no outro. As duas de roupão.
Silêncio. Encaravam-se, concentradas. Abriram as vestes simultaneamente. Debaixo das roupas, corpos nus, esculturais. As vozes e olhos percorriam espantados cada curva. O padre estava embasbacado.
De repente, o tempo fechou. Em meio a ventos cortantes, um relâmpago cegou o público. Quando as vistas voltaram ao normal, enxergaram em cada lado da calçada um pedaço de carvão. Nenhum rastro de Belzébia, muito menos de Lucy Fernandes. Naquele dia, todos foram para a igreja. E não foi por falta de opção.

Escrito por Gustavo

Julho 3, 2009 em 12:42 am

Publicado em Sacada Literária

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